Justiça multa pastor evangélico por pregar em festa de umbanda

da Folha Online

Em uma decisão inédita na Justiça de São Paulo, o pastor da Igreja Batista Francisco Joaquim de Andrade terá de pagar R$ 1.000 por ter distribuído panfletos evangélicos durante rituais de umbanda, em dezembro, na Praia Grande, litoral de São Paulo.

A ação criminal por discriminação religiosa foi pedida pelo Superior Órgão de Umbanda do Estado de São Paulo e pela União das Tendas de Umbanda e Candomblé do Brasil.

O advogado Antônio Basílio, que representa os praticantes de umbanda, diz que a decisão foi tomado porque a maioria dos evangélicos desrespeita a religião.

“Durante as festas, grupos de evangélicos se vestem de branco para se ‘infiltrar’ entre os umbandistas e começam a negar e a ridicularizar as (nossas) divindades. Isto é um desrespeito, não entramos nas igrejas deles para pregar (nossa crença)”, afirma o advogado.

Outro lado

Segundo Andrade, a festa de Iemanjá acontece na praia, que é um local público. “Não vejo problema em divulgar a minha fé também. Isto é censura e intolerância religiosa”, diz.

Nos panfletos, distribuídos em festas em homenagem a Iemanjá, a divindade é considerada uma lenda, como o saci-pererê e o curupira, e convida os praticantes de umbanda para a igreja evangélica.

O pastor afirma que faz a “evangelização” com a distribuição de panfletos em várias festas e não somente nas de umbanda. “Vamos à [catedral de] Aparecida e ao Círio de Nazaré, sempre onde há muitos religiosos”, disse.

Multa

O pastor Andrade tem de pagar a multa até a próxima terça-feira, mas ele afirma que não concorda com a decisão e não tem o dinheiro da multa. Se não houver pagamento, Andrade será julgado novamente.

A decisão da Justiça foi comunicada no último dia 16 em uma audiência preliminar pelo juiz Osvaldo Palotti Júnior, da 17° Vara Criminal. Aldo Santos Menezes, que publicou os folhetos, também foi condenado a pagar a multa.

Crenças da umbanda

Religião afro-americana, a umbanda foi fundada nos anos 30 no Brasil, a partir de rituais e crenças africanas, indígenas e européias.

Para seus praticantes, o universo é formado por entidades, os guias, que entram em contato com os homens por meio de um iniciado, que os incorporam. São guias na umbanda o Caboclo, o Preto Velho e a Pombagira.

Nos rituais de umbanda, presididas por mães-de-santo, os praticantes fazem oferendas às entidades nos chamados terreiros (templos para a religião). Há também sessões de consulta, em que as pessoas se aconselham com os guias obtendo ajuda para problemas que estejam enfrentando.