Aprendendo com José e Maria

Pr. Oswaldo Prado

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Nestes dias em que se aproxima o Natal, percebo que dois personagens são normalmente esquecidos. Estou me referindo a José e Maria.

Notoriamente Jesus é cantado em verso e prosa, lembrado em nossas reuniões de família, e até mesmo usado como um ícone para nossos desejos mercantilistas. Afinal, quem não se sente extremamente grato ao receber um presente, por mais simples que seja nesses dias?

Vale a pena refletir por que José e Maria normalmente ficam à margem de toda essa história. Haveria possibilidade do Filho de Deus vir a este mundo de outra maneira, sem a inclusão de um pai e de uma mãe terrenos? Claro que sim.

Estamos diante de uma intervenção divina, e, portanto, sobrenatural de Deus. Desta forma, qualquer possibilidade, por mais absurda que possa nos parecer, seria plenamente viável aos olhos de Deus. Em outras palavras, Ele poderia escolher a maneira que quisesse para viabilizar um Filho semelhante a um de nós. Mas a escolha recaiu sobre José e Maria.

Outra pergunta que deveríamos fazer seria: por que José e por que Maria?

Poderíamos levantar uma série de hipóteses. Mas os recursos mais factíveis encontramos nas Escrituras. Lendo algumas das passagens bíblicas, observo algumas razões pelas quais este homem e esta mulher foram separados para se tornarem os pais de Jesus.

Olhando para José

O evangelista Mateus, registra no cap. 1, vers. 19:

“Por ser José, seu marido, um homem justo, e não querendo infamá-la, e não querendo expô-la à desonra pública…”

Logo de início, fica patente que havia uma caraterística na vida de José que o diferenciava da vida de outros homens: José era um homem justo. Normalmente associamos essa característica ao fato de Deus ter nos tornado justos em Cristo Jesus (Rom.5:1). Isto não deixa de ser uma verdade inquestionável. No entanto, penso que estaríamos limitando o evangelho do Reino se a nossa dimensão de justiça se restringisse tão somente a esse aspecto.

Se José era um homem justo, então certamente isto tinha a ver com suas atitudes diante dos homens e da sociedade em que vivia.

Estamos experimentando um tempo extremamente contraditório no meio do povo evangélico brasileiro. Enquanto muito advogam para si mesmos uma espiritualidade quase transcendente e que afirmam estar muito perto de Deus, os atos aqui na terra ainda demonstram o contrário.

Tem se tornado comum ouvirmos relatos de cristãos que, como empresários ou executivos, tem explorado seus empregados. Por outro lado, também tem existido trabalhadores que se chamam cristãos e que tem dado demonstrações de falta de zêlo e honestidade para com seus patrões.

E o que dizer do posicionamento nosso como cristãos diante de uma sociedade corrompida e que também corrompe? Não estaríamos de certa maneira “fechando nossos olhos” para tantas formas de injustiça , justificando que não é esta nossa tarefa como cristãos?

A radicalidade do evangelho nos leva obrigatoriamente a vivê-lo em toda a sua integralidade. Em outras palavras, nos alegrarmos com a esperança de uma vida eterna, mas nos posicionarmos claramente a favor da justiça enquanto cidadãos deste mundo. Enquanto houver crianças abandonadas ao nosso redor, gente sem teto para se resguardar durante a noite, criaturas que tem passado fome, sem ter com que se alimentar, haverá sempre um clamor por justiça.

Enquanto o cidadão mais pobre de nosso país não tiver acesso à educação, à saúde, e a um padrão de vida no mínimo justo, se esperará um posicionamento claro e concreto daqueles que se chamam cristãos.

José se torna pai do Messias por ser um homem justo. Poderíamos ser encontrados hoje desta mesma forma?

Olhando para Maria

Ela era uma mulher semelhante a qualquer outra. Foi bebê, se tornou uma menina, adolescente e finalmente uma mulher. Sua humanidade, portanto, era algo inconfundível.

Mas quando olhamos para Maria notamos que algo especial aconteceu e o evangelista Lucas se encarrega de nos relatar:

” O anjo aproximando-se dela, disse: Alegre-se, agraciada! O Senhor está com você!” (Lucas 1:28)

Dentre tantas outras semelhantes a ela, Maria foi, em certo momento da vida, diferenciada das demais. Deus a encheu de Sua graça, tomando seu ventre e gerando ali, pelo Espírito Santo, o Messias que haveria de vir, em cumprimento às profecias.

Nós, cristãos protestantes, muitas vezes nos esquecemos também em falar de Maria. Receosos de colocá-la num patamar quem sabe irreal, quase a desprezamos como aquela que Deus escolheu para gerar o Salvador.

O que chama minha atenção ao refletir sobre Maria é a sua profunda humanidade. Se José era um homem justo, Maria era uma genuína mulher.

Logo após ter recebido a palavra do anjo, Lucas registra que Maria ficou “perturbada com essas palavras” . (Luc.1:29) Suas emoções não foram de modo algum bloqueadas ou escondidas. Maria demonstrou ser uma mulher ao se sentir emocionalmente abalada.

É comum admirarmos as mulheres cristãs que não esmorecem, que não mostram seus temores. São quase “super-mulheres”. Na perspectiva de Deus, Maria era suficientemente mulher para receber a notícia do anjo e sentir-se perturbada.

Hoje tem sido comum sempre falarmos e cantarmos sob o signo da vitória. Seria possível uma mulher guerreira sentir-se perturbada? De forma alguma, segundo a teologia que ouvimos nos nossos dias. Nem passaria pela cabeça de muitos de nós se falar numa mulher agraciada por Deus, e…perturbada em seu íntimo! Mas foi assim que aconteceu, pois Maria uma mulher na verdadeira acepção da palavra.

E havia um outro aspecto importante na vida de Maria: ela teve a coragem de levantar alguns questionamentos que estavam dentro de seu coração. No meio de toda aquela situação ela afirma:

“Como acontecerá isto, se sou virgem?” (Luc.1:34)

Vivendo numa sociedade patriarcal, onde o homem exercia plena autoridade, Maria abre sua boca e questiona toda aquela situação.

Nosso ambiente evangélico ainda não propicia muitas vezes espaço para que as mulheres exerçam seu papel como tais. Muitas vezes são colocadas em posição de segunda categoria. Podem falar algumas vezes, mas questionar, nunca.

Podem orar, podem ser a expressiva maioria em nossas igrejas, mas pregar ou ocupar alguma outra posição estratégica no meio da igreja, nem pensar. Interessante notar como estabelecemos uma sociedade eclesiástica tão distante daquela que Jesus imaginou para uma mulher.

Neste Natal, eu gostaria de pensar muito mais em José e Maria. Reconhecer a sabedoria de Deus em separar estas duas pessoas tão comuns, tão humanas para se tornarem pais do Salvador.

Certamente nossas igrejas serão muito mais saudáveis e pertinentes diante da sociedade se aprendermos a viver como José e Maria.